Se houvesse a possibilidade de fazer recuar o tempo até àquele momento em que somos obrigados de tomar a “tal decisão” em relação ao que queremos para o nosso futuro, sem dúvida que teria enveredado por uma profissão muito mais aliciante do que tenho actualmente.
Se Deus tivesse pena de mim e permitisse esse tal milagre, a profissão a que me dedicaria de corpo e alma seria a de Inspector num Centro de Inspecção Automóvel.
Não deverá haver nada mais emocionante do que dizer a um ricaço qualquer algo deste género: “Oh Sr. Dr. Visconde da Atalaia, o seu Ferrari chumbou na inspecção porque tem um CO2 acima do que está estabelecido. Faça favor de ir buscar a vinheta encarnada e terá de vir cá novamente num prazo de trinta dias”.
Quem não teve ainda a experiência de ir a um Centro de Inspecção Automóvel? Como não tenho pais ricos e nunca fui ao BES, posso dizer que sou um assíduo nestas coisas.
Levar o nosso carro a um centro de inspecção poderá ser das experiências mais humilhantes que nós poderemos ter no dia-a-dia. Anda um gajo a tentar não bater com o carro, a fazer revisões periodicamente e a gastar dinheiro para vir um indivíduo de bata azul dizer-me que o carro não passou na inspecção por isto ou por aquilo. Só dá vontade de pegar na moca que temos guardado no carro e dar-lhe na cabeça até ficar em sopa de tomate. Digam lá que não tenho razão?
Vou contar a minha experiência de há dois anos…
Já na véspera da ida ao Centro de Inspecção (último dia do prazo, obviamente) começava a nascer em mim uma certa ansiedade. «Como irá ser amanhã? Será que vai haver algum cabrãozeco que irá foder-me a vida?», eram perguntas que chocalhavam, então, no momento. Desculpem-me a linguagem utilizada, mas nos nossos pensamentos não conseguimos substituir os palavrões por beeeeeps de censura.
No dia da inspecção, tento levantar-me o mais cedo possível para poder ser um dos primeiros a ser atendido, contudo, por norma, não somos os únicos a pensar assim e quando cheguei ao local, a azáfama de carros já era muita. O ambiente é gélido, vai-se preparando os documentos sem, no entanto, deixar de se reparar nos carros uns dos outros, de forma a avaliar as hipóteses de sucesso ou insucesso de passar na inspecção. «Tu com esse farolim assim já estás arrumado, vai é pra casa ó badameco, só estás é a empatar aqui um gajo», pensei eu após ter deitado a vista ao carro que estava à minha frente.
Após a inscrição e um bom tempo de espera, lá ouvi o maquiavélico bata-azul a gritar pela matrícula do meu carro. Tinha chegado a hora. «Vá, mostra aquilo que vales, nada de fundires nenhuma lâmpada agora, nem borrares óleo pelo motor, e quando te meterem o tubo pelo escape acima, não tussas o catarro que tens dentro de ti. Se te portares bem, dou-te um super-aditivado de 98 octanas como prenda»
O carro avança lentamente para o local… mostro-lhe o triângulo, os coletes, brinco com os pisca-pisca a pedido do gajo, ora para a direita ora para a esquerda, dou-lhe com mínimos, médios e máximos e, de seguida, faço umas acelerações para que possa medir o monóxido de carbono. Observa os cintos e, já na parte em que examinava o veículo por baixo, chama por mim para ir ter com ele. «Sim… que se passa?». «Tem aqui um tubo que está a apontar para o chão e que deixa cair resíduos provenientes do carro», enquanto apontava para uma coisa minúscula que se situava precisamente no meio do carro. Tão minúscula que fiquei sem saber se realmente a tinha visto ou não. Após essa observação, mandou-me subir para o carro. E pronto, tinha acabado a inspecção.
«Então Sr. Inspector, o meu carro passou?», perguntei eu de imediato. «Faça o favor de ir lá dentro e esperar até que chamem por si», resmunga o bata-azul enquanto rabisca, pela última vez, os papéis que tem consigo. «Mas, mas… aquele tubinho minúsculo vai chumbar-me na inspecção?!?», voltei a interrogá-lo… sem resposta.
Enquanto me dirigia ao sítio indicado, passei por um velhote de ar tristonho, ar de derrotado, com a vinheta escondida entre as mãos, ainda trémulas, tentando não mostrar aos outros a vergonha de ter uma vinheta vermelha nas suas mãos.
Para se dar a vinheta vermelha é uma coisa rapidíssima e passados uns 2 minutos lá vinha o bata-azul, inchado, a indicar os motivos por ter chumbado o meu carro. O motivo tinha sido o tal tubo. O engraçado da história é que era a 5ª vez que ia à inspecção com o mesmo veículo, sempre no mesmo Centro, e nunca tinham detectado, até à data, tal anomalia… ou seja, o gajo andava à procura de festa. Por entre muitos rosnar de dentes, lá me calei e acabei por me ir embora.
No mesmo dia enfiei uma rolha de cortiça no tal tubo e passados 15 dias o meu bogas passou imaculadamente na inspecção… com o mesmo bata-azul!
Contudo, se queremos evitar este tipo de humilhações, poderemos optar por outras estratégias: ou pagamos a um mecânico para lá ir; ou entramos no jogo corrupto de pagar por fora a um desses bastardos; ou simplesmente não vamos à inspecção, sujeitos a sermos apanhados por algum geninho. No ano passado optei pelo caminho da corrupção. Num dos próximos posts irei contar-vos tudinho… não percam!
quinta-feira, novembro 09, 2006
quinta-feira, novembro 02, 2006
Humanos - Quero É Viver
Estava a meio caminho da labuta, ainda meio ensonado, resignado pelas horas mal dormidas, pelo desenfrear do trânsito da 2ª circular e pelo tempo amorfo, ainda indeciso se iria chover ou fazer sol, quando comecei a escutar na rádio uma música dos Humanos, “Quero é Viver” e, de um momento para o outro, aquela letra de António Variações encheu-me de alegria para enfrentar mais este novo dia, que se adivinhava duro…
E pouco me importando com os olhares incrédulos que se cruzavam, acompanhei o refrão, em plenos pulmões, cantando “Quero é viver”.
Porque é que complicamos tanto a nossa vida? É tão simples querer viver…
E pouco me importando com os olhares incrédulos que se cruzavam, acompanhei o refrão, em plenos pulmões, cantando “Quero é viver”.
Porque é que complicamos tanto a nossa vida? É tão simples querer viver…
quarta-feira, julho 27, 2005
Prólogo
Já há muito tempo que acompanho a evolução da blogosfera e da sua crescente importância no quotidiano das nossas vidas.Acho simplesmente fascinante poder encontrar pessoas que fazem questão de querer partilhar os seus sentimentos, as suas experiências vividas, os seus ideais, as suas inquietudes e medos a um sem número de desconhecidos, alguns seus amigos, mas na maioria, desconhecidos…
Os bloguistas não sabem, e nem querem saber, os seus nomes, quem são, o que fazem, quais as suas motivações. Nada disso importa no mundo da blogosfera, querem simplesmente partilhar… nem que seja para uma só pessoa.
Tentei, por várias vezes, nestes últimos três anos, fazer parte desta comunidade, tentando construir um blog à minha imagem - um blog que fosse sentido e verdadeiro, crítico, mordaz, corrosivo e controverso, todavia sempre apaladado com uns bons salpicos de humor para não provocar nenhuma congestão -. Porém, tentativas essas, acabaram sempre por sair goradas... ou por falta de tempo e disponibilidade ou, simplesmente, por não ter conseguido entregar-me de corpo e alma à minha escrita.
Daí poder interrogar-me se, desta vez, as coisas poderão ser diferentes. Acredito que sim. Prometi a mim mesmo que iria direccionar todos os meus esforços para dar vida a este blog.
A razão pela qual dei o titulo ao blog de “O Nada da Questão” é, sobretudo, porque tenciono abranger variadíssimos temas, que no fundo, não passam de meros “nadas” da nossa vida quotidiana, sem me restringir unicamente a um assunto, dando, deste modo, total liberdade à minha imaginação.
Sejam bem-vindos ao mundo do BigHel!
"Escrever é também não falar. É calar-se. É gritar sem ruído."
Marguerite Duras
Marguerite Duras
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